– Tom Andersen
Sensibilidades da prática colaborativa dialógica
"Há sempre muito mais a se ver e a se ouvir do que somos capazes"
Humildade
Humildade significa encontrar com o cliente e ter interesse genuíno em conhecê-lo em sua complexidade. Pois a sua experiência é infinitamente mais rica do que qualquer teoria poderia explicar. Então, antes de priorizar a pressa em entendê-lo, busca-se investir tempo de qualidade em aprender com ele sobre sua experiência.
Com isso, o terapeuta se coloca em uma posição de aprendiz, ávido por conhecimento, respeitando o roteiro que o cliente oferece. Este movimento exige humildade em reconhecer nossa ignorância, aceitar a vulnerabilidade de não saber e perguntar para ser informado.
Isso é diferente de fazer perguntas para confirmar hipóteses, para sugerir interpretações. A intencionalidade aqui é aprender e se deixar desenvolver pelo conhecimento construído no relacionamento.
Se o terapeuta não abraça a sua ignorância quanto ao outro, corre o risco de preencher lacunas de entendimento com interpretações errôneas.
“A humildade é um compromisso que precisa ser renovado constantemente, para nos afastar dos conhecimentos de expert, para promover o não saber.”
– Harlene Anderson
Curiosidade
Depois de humildemente se colocar como aprendiz do cliente, a curiosidade tem uma função importante.
Ao se conectar com a Curiosidade e ir de encontro com o outro, é possível estar genuinamente com ele.
A curiosidade participa ativamente na elaboração de perguntas.Enquanto escuta, o terapeuta faz perguntas para verificar o conhecimento construído no diálogo que está acontecendo ao vivo. Essas perguntas esforçam gentilmente o saber do cliente, que se empodera enquanto maior conhecedor da situação que vivencia.
As perguntas não acontecem linearmente, mas de forma responsiva ao relato. Novos conhecimentos convidam novas perguntas, construídas com a única intenção de entendimento.
“Toda resposta que é oferecida em dialogo é norteada por nosso interesse em entender toda a complexidade da experiência do outro.”
Polivocalidade
Entendemos a Polivocalidade a partir da compreensão de personagens internos e self relacional do construcionismo social.
Este entendimento faz referência aos processos sócio-históricos que nos desenvolveram em quem somos: os relacionamentos mais relevantes da nossa experiência criam roteiros, itinerários, por onde as pessoas se entendem umas às outras e oferecem suas respostas.
Desta forma, respondemos de forma semelhante a interações que nos remetem a estes itinerários, estas formas testadas e avaliadas como coerentes ao longo do tempo, são apresentadas espontaneamente pelas pessoas no diálogo.
Quando percebemos formas diferentes de ser e responder a interações, podemos iniciar perguntas que buscam entender aquelas personagens performadas pelo outro, caracterizando-as em vozes internas, ou personagens internos. Quando complexificarmos o self podemos experimentar maior reflexividade, um diálogo interno, que constrói respostas com mais conhecimento do que uma situação pede, e quais os resultados preferenciais para aquela interação.
Também pratica-se a polivocalidade quando um cliente relata sua história e um outro participante aparece e tem relevância naquela interação. O terapeuta pode perguntar se o cliente gostaria de convidar esta pessoa, ou estas pessoas, para uma conversa com ambos, quando pode entender também por eles suas descrições daquela realidade, suas semelhanças e diferenças agregadoras. O cliente é quem define se estes outros participantes são úteis ao processo ou não.
De forma semelhante, quando outros participantes não podem estar presencialmente, usa-se de cartas para conhecê-los, ou quando mesmo isso se torna inacessível, convida-se a voz internalizada deste no cliente, para entender uma possível descrição alternativa.
Esta forma de fazer terapia é um convite à desconstrução do individualismo que culpa individualmente as pessoas pelo que vivem, sem interessar-se pelos participantes que testemunham aquela realidade e, neste entendimento, a constroem junto com o cliente.
Podemos fazer muito pouco sozinhos. A polivocalidade evidencia que nunca estamos sozinhos e a mobilização de nossas comunidades transforma quem somos e nosso entorno.
“Polivocalidade é trazer muitas vozes ao processo de compreensão dos relacionamentos que constroem determinada realidade.”
Integralidade
A integralidade diz respeito à postura reflexiva do terapeuta para avaliação das respostas que lhe ocorrem.
Terapeutas têm conhecimentos de uma vida de experiências (a sua vida), e tudo isso é bem vindo ao diálogo, contanto que, nesta avaliação, fique evidente que a voz que oferece uma experiência é a voz do terapeuta.
Quando é tocados por um conteúdo (seja por mobilizações corporais, emocionais, de identificação, ou curiosidade, etc.) se engaja em diálogo interno para entender o que mobilizou-o ali, qual o seu entendimento daquilo e como pode fazer uma pergunta ao outro que convide o seu entendimento, para que possa estar mais próximo dos significados do cliente.
Alguns formatos principais podem facilitar o compartilhamento seguro de experiências, sendo a pergunta conversacional uma das mais importantes.
Outras formas seriam: testemunhos, reflexões, convites a testemunhas externas, cartas testemunhais.
“Respondemos às demandas de nossos clientes sendo os terapeutas que eles esperam que sejamos, enquanto, simultaneamente, somos os terapeutas que sabemos que podemos ser, sem ferir nossos valores epistemológicos.”
Democracia
A Democracia faz referência a legitimidade que se oferece a todas as vozes participantes de um processo, sejam elas internas, externas, ficcionais ou culturais. Independente de sua fonte, buscam-se conhecer este interlocutor, oferecendo espaço de escuta e de entendimento.
Esse compromisso de dar atenção às vozes de forma democrática, tem como objetivo acolher vozes que convidam olhares de julgamento e acabam sendo interpretadas com um olhar negativo. Ouvir e acolher essas vozes possibilita respostas criativas e qualitativas aos participantes envolvidos, além de dissolver julgamentos através do entendimento de todos os pontos de vista dos participantes da história.
Dessa forma, proporciona uma liberdade não apenas individual (de um dos participantes), mas uma liberdade social e coletiva. Sendo assim, fronteiras de respeito são construídas pelos participantes, que estão comprometidos com esse processo e uns com os outros.
“Este compromisso visa tirar da marginalidade vozes que podem incentivar a criatividade na construção de respostas mais qualitativas aos participantes.”
(Gergen, 2018; Lenzi, 2017).
Transformação Mútua
A prática colaborativa dialógica proporciona trocas de tamanha complexidade que o novo conhecimento é um produto inerente ao processo e para todos os participantes: clientes, famílias, comunidade e também para o terapeuta.
O compromisso do terapeuta com a transformação mútua o coloca em constante avaliação dos processos em que participa, tanto em conversações internas, quanto externas com os clientes. Dessa forma, procura sempre enriquecer o entendimento que o terapeuta faz do dialogo que cliente e terapeuta construíram juntos em terapia, treinamento e outros contextos relacionais.
O enriquecimento do entendimento acontece através de uma “avaliação”. Essa avaliação ocorre com as perguntas de verificação do entendimento para alinhar interpretações com as do outro, por exemplo: ‘quando você diz esta palavra, posso entender dessa forma?’, e se usa palavras que são entendidas como semelhantes para verificar se temos significados compatíveis para aquele momento da interação.
Assim temos o cuidado e atenção na construção do nosso saber do outro.
Outra forma de avaliação é pedir um espaço para conversarmos sobre o processo, as expectativas do cliente e como ele avalia nossa interação.
Este exemplo das avaliações são ilustrações de como estamos aberto para a transformação da nossa forma de ser como terapeuta para cada cliente.
Quando experimentamos uma relação dialógica não conseguimos deixar aquela interação da mesma forma que chegamos. A transformação é mútua, o terapeuta sai tão transformado como cliente.
“Conhecimentos são enriquecidos, experiências são vividas, intimidade desenvolvida, somos mutuamente transformados, ou algo não está bem na interação.”
Diálogo não interventivo
Para explicar essa sensibilidade, nós gostamos de utilizar das metáforas do convidado e anfitrião e do terapeuta como alfaiate (Lenzi, 2017).
A metáfora do convidado e anfitrião pede que pensemos o espaço da terapia como um espaço no qual os terapeutas são convidados e recebidos na história (cômodo da casa) do cliente. Como anfitrião, o cliente vai permeando pelos cômodos que ele pensa ser importante que o terapeuta conheça. O terapeuta, metaforicamente, não olha debaixo do tapete ou procura pelos esqueletos nos armários. Um convidado não faz isso.
Na metáfora do terapeuta como alfaiate, o respeito pela escolha do cliente também é fundamental. Como alfaiate, o terapeuta costura com o tecido escolhido pelo cliente. As preferências do terapeuta por tecido são secundárias.
A expertise é costurar o produto como encomendado pelo cliente, e nesse processo o terapeuta está ciente dos seus limites e facilidades.
Na prática, isso aparece no compromisso do terapeuta em conversar com o cliente sobre o que ele acha importante para a conversa. O terapeuta não interrompe sua apresentação, mas espera pelo momento que o cliente considere apropriado para sua participação. Só então o terapeuta se engaja na construção de uma pergunta que seja fruto da sua curiosidade pelo ouvido, norteada pelo interesse em querer aprender com o cliente sobre ele, em entender uma situação e verificar se os entendimentos estão de acordo.
Dessa posição de genuíno interesse no conteúdo do outro e humildade para aprender com ele surge o potencial transformativo do dialogo.
“O poder transformativo do diálogo”